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mar 07 2019

Cortejo histórico da cultura afro-brasileira no bairro Pimentas em Guarulhos.

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Por Agnes Karoline

Yalorisà Claudia (Na esquerda) de Oya e as crianças abrindo o cortejo.

No dia 03 de Março aconteceu um evento histórico no bairro Pimentas em Guarulhos. O grupo de capoeira E.C. E Brasil e o Afoxé Omo Oya realizaram um cortejo com o objetivo de levar para as ruas do bairro onde os dois grupos vivem e se organizam há décadas a cultura afro-brasileira. Os dois grupos acreditam que vivemos em um momento muito crítico aonde a cultura popular vem sendo desvalorizada ao mesmo tempo em que o racismo esta em ascensão. A capoeira nasceu da necessidade dos negros se defenderem das torturas e crimes que eram cometidos contra a humanidade no período da escravidão. O Afoxé nasceu da necessidade de expressar publicamente a cultura dos terreiros e das casas de candomblé que por preconceito já foram proibidos do livre direito de culto.

                Com isso, ambas as expressões culturais preservaram em suas práticas a história brasileira que é também a história do povo negro. Neste sentido, a resistência sempre foi um lema para esses grupos e a necessidade de estarem nas ruas para que a história não se perca, é não só necessário como inevitável!

                Símbolo disso foi, mesmo depois da forte chuva que, inclusive, alagou diversos pontos do bairro, os grupo se concentraram no terminal dos Pimentas e seguiram em cortejo até a conhecida popularmente como praça do Stela.  Esse trajeto foi pensado como forma de relembrar a própria história do bairro, como diz a Yalorisà Claudia dy Oya “aqui havia um quilombo que ia das lavras até quase a penha e esse quilombo foi formado da resistência dos negros que trabalhavam das minas de ouro na região hoje do Bonsucesso”. Era um quilombo muito grande que hoje muitos do bairro são descendentes, mas por conta do massacre, feito a luta de resistência o povo negro aqui no bairro que tem um déficit habitacional de 100 habitantes, formulou um grupo enorme de sem tetos.

Grupo de Capoeira E.C.E Brasil, no canto esquerdo Mestre Dinho Caruaru.

  Ao mesmo tempo em que o Mestre Dinho Caruaru relembra “Aqui quando acaba essa Rua Jurema até o final da Rua Jacutinga era tudo um rio, a gente vinha pegar peixe, brincava, nadava. Inclusive eu conheci a capoeira quando vi um homem muito grande que passava na rua com um berimbau na mão e ia treinar capoeira na beira do rio”.  O Mestre Dinho Caruaru chegou ao bairro em sua infância, vindo de Pernambuco com seus pais e avôs que eram indígenas, mas por conta de toda a discriminação não queriam se expor como povos originários dados ao forte preconceito. Tanto o Mestre Dinho Caruaru como a Yalorisà Claudia dy Oya são bibliotecas da história viva do bairro, que é muito representativa da história brasileira assim como o trabalho que cada um deles preservam, assim são patrimônio vivo da humanidade.

Dado a essa grande importância do trabalho cultural desenvolvido por cada um desses grupos, mas que infelizmente ainda não recebem o devido reconhecimento por lei por  reparação histórica, de políticas de valorização cultural e de fomentos necessários para seus trabalhos. O cortejo é um marco histórico para a luta do povo negro, da cultura popular, da Capoeira, do Afoxé e para as comunidades tradicionais de terreiro.

Para conhecer mais: aulas gratuitas do grupo Capoeira E.C.E Brasil no CEU-Pimentas/Guarulhos. Treinos as segundas, quartas e sábado. Roda às sextas-feiras 19h.
https://www.facebook.com/ecebrasil/?ref=br_rs

A sede do Afoxé fica no Endereço: Rua Peabiru, 136 – Pq. Stella – Guarulhos – SP
https://www.facebook.com/AfoxeOmoOya/?ref=br_rs

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jan 22 2014

Um ano de rolezinhos e lutas

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Por 
Edson Teles.

O ano de 2014 inicia-se sob a promessa de ser pleno de lutas e profunda movimentação política. Com a herança das manifestações de junho de 2013, a expectativa da realização da Copa do Mundo no “país do futebol” e das eleições para Presidência, governos dos estados e Congresso Nacional convidam o Brasil e a sua jovem democracia a experimentarem um ano dos mais políticos, se tomarmos esta palavra como sinônimo de relações conflituosas e dinâmicas em torno das questões que tocam em nossas vidas cotidianas.

Nem mesmo terminamos o primeiro mês do ano e o “rolezinho” toma as principais manchetes da mídia tradicional, das redes sociais e dos espaços alternativos de debates públicos. Realizado há vários anos como modo de encontro e lazer pelos jovens da periferia, o “rolezinho” ganhou uma conotação política ao ser inserido entre as questões que giram em torno da contestação e da ocupação dos espaços urbanos. Como uma espécie de sequência das manifestações do ano passado, este tipo de movimentação alimenta os debates sobre o modo como os governos democráticos vão lidar com as imprevisibilidades de ações que funcionam como momentos criativos e de experimentação de práticas livres, em meio a uma sociedade dedicada ao controle e à disciplinarização dos corpos.

É fato que os “rolezinhos” em shoppings estão muito mais ligados, no imaginário de seus participantes, a uma demanda por inserção em um mundo de consumo e de realização de desejos distantes dos moradores das periferias das grandes cidades. Diferente das manifestações de junho passado, não há uma pauta de reivindicações e nem mesmo a escolha de um inimigo imediato a ser alvejado para a conquista de suas demandas. A galera quer apenas habitar um espaço de lazer, com ar fresco em pleno verão escaldante e encontrar gente legal, bonita e disposta a se conhecer.

Contudo, uma democracia com um forte legado autoritário, em especial aquele vindo da recente ditadura militar, tende a ver a reunião de pessoas pobres, da periferia, que não têm a posse da propriedade, como algo perigoso e sem sentido. Quando pessoas de direita bradam “deixem os clientes dos shoppings em paz”, nada mais expressam que a postura conservadora de parte da sociedade brasileira que se encontra feliz e realizada com a atual condição social e política do mundo. Interessa a estes manter ou aumentar suas posses, e sua reação é o apoio à imediata repressão, novamente da polícia militar, contra os jovens dos “rolezinhos”. Cena bizarra nas entradas de shoppings: bala de borracha, bomba de gás, cassetete, revista e decisão sobre quem é “vândalo” e quem é o verdadeiro consumidor.

A lógica da governabilidade, a razão política dos governos democráticos, não pode e não tem como lidar e controlar a ação política em sua plenitude e contingência. A imprevisibilidade e a criatividade destas ações seguem as manifestações de junho ao contestar o lugar que devemos ocupar e o modo de sermos. Os governos sabem, e com grande desenvoltura, lidar com os acordos palacianos, com a distribuição de cargos e as decisões tomadas sob a escuta das previsíveis elites e oligarquias políticas. Mas, com as ruas e os modos cada vez mais inusitados como são ocupadas, a racionalidade de governo tem sérias dificuldades.

O ano de 2014 nasce como momento oportuno para os governantes aprenderem com o povo outra visão das relações sociais e políticas.

Não são de direita, não são representantes de forças ocultas, não são fantasmas, não são contra os direitos sociais e seus programas de inclusão, não são contra este ou aquele candidato, ou um ou outro partido. Os jovens dos “rolezinhos”, os manifestantes de junho, os militantes do movimento “Não vai ter Copa” são lutadores contra o modo como tradicionalmente o país dispõe de nossas terras, ruas, espaços públicos, riquezas e instituições.

Fonte:http://blogdaboitempo.com.br/2014/01/22/um-ano-de-rolezinhos-e-lutas/

 

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